ARTIGO DE ROBERTO LENT, NO JORNAL O GLOBO, REVELA QUE PESQUISADORES ALEMÃES ESTUDARAM A ATIVIDADE NEURAL DOS PERCUSSIONISTAS

Em artigo do jornalista Roberto Lent,publicado no jornal O Globo, sobre os percussionistas que atuam no carnaval,achei oportuno publicar essa excelente matéria: Faz sentido analisar qual milagre da natureza permite que os ritmistas e percussionistas das escolas de samba e blocos de rua demonstrem suas incríveis habilidades motoras.Já pensaram nisso? Percussionistas habilidosos controlam com inexcedível maestria os movimentos simultâneos — mas não iguais — das duas mãos. A isso se chama desacoplamento intermanual. Os percussionistas mais habilidosos conseguem executar um ritmo com a mão direita e outro diferente com a mão esquerda. Os movimentos de um baterista podem endereçar o prato de condução com uma das mãos, e o surdo com a outra, a velocidades e ritmos distintos, embora coerentes. E sem falar que usam os pés também, para percutir o bumbo e os pratos chimbal.A pergunta irresistível é a seguinte: de que modo o cérebro controla esse virtuoso desacoplamento entre as mãos, característico dos músicos em geral, e dos percussionistas em particular?Essa questão interessou um grupo de pesquisadores alemães, que acabou de publicar os resultados de um trabalho empregando diversas abordagens técnicas.Aplicaram testes comportamentais para medir o desempenho de 20 percussionistas de excelência,comparado a um número semelhante de participantes sem habilidades musicais. Resultou, é claro, em uma habilidade intermanual 20% maior dos percussionistas.Além disso, adquiriram imagens de ressonância magnética estrutural do cérebro de ambos os grupos, e imagens funcionais resultantes de uma tarefa rítmica de tamborilar com os dedos das duas mãos em diferentes sequências. Finalmente, utilizaram uma técnica que permite medir a quantidade regional de uma substância conhecida por sua participação na inibição da transmissão de informações entre neurônios (o aminoácido conhecido como GABA).O cérebro dos percussionistas, mais eficiente, realiza mais com menos, com melhor desacoplamento entre as mãos em menor atividade neural. Destaque para as regiões pré-frontais do cérebro motor, que realizam o planejamento e a programação online dos movimentos das duas mãos. Destaque também para o famoso corpo caloso, enorme conjunto de fibras nervosas responsáveis pela coordenação entre o lado esquerdo e o lado direito do cérebro.De acordo com os pesquisadores, a coisa funciona assim: as regiões de comando motor direto operam de modo parecido em percussionistas e em pessoas não-treinadas, na realização das tarefas de tamborilar os dedos de modo desigual entre as mãos. No entanto, as regiões de planejamento e tomada de decisões motoras apresentam maior atividade nos indivíduos não-treinados do que nos percussionistas.Os pesquisadores interpretaram esse achado aparentemente incongruente, como indício do intensivo treinamento dos músicos, capaz de produzir melhores resultados motores com menor esforço cerebral. Isso porque as medidas estruturais da neuroimagem indicaram maior eficiência no trânsito de informação entre os dois lados do cérebro, durante as atividades de percussão.



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